ROBERTO ALVES GALLO
BIOGRAFIA do ARTISTA
BIOGRAFIA do ARTISTA
Roberto Alves Gallo
(Campinas, 15 de maio de 1957 – Balneário Camboriú, 18 de julho de 2023)
Roberto Alves Gallo foi artista plástico, aquarelista, escultor, desenhista, muralista, paisagista, cenógrafo e ambientalista. Ao longo de cinquenta anos de trabalho, entre 1973 e 2023, desenvolveu uma obra que atravessa a pintura, a escultura, o paisagismo e a cenografia sem se filiar a um estilo — e que permanece, ainda assim, reconhecível.
Ele mesmo dizia que estilo é algo que os outros querem atribuir ao artista.
Sua produção tem um eixo: a paisagem. Das primeiras aquarelas às cenografias monumentais de aquários públicos, o trabalho investiga a relação entre natureza, espaço e experiência humana. Mais do que representar paisagens, Roberto Gallo passou a construí-las.
Formação
Iniciou-se na infância, em Campinas, como aluno de Aldo Cardarelli e Olavo Sampaio. Cursou desenho e pintura no Conservatório de Campinas, na PUC-Campinas, e gravura no Museu José Pancetti. Na Itália, especializou-se em Metodologia e Técnica do Afresco na Accademia di Belle Arti de Florença.
Essa formação em pintura mural é decisiva, e reaparece quarenta anos depois. O afresco se executa sobre reboco ainda úmido, numa janela de trabalho curta e sem possibilidade de correção. É a mesma lógica dos baixos-relevos que ele cortaria à faca no cimento fresco em Caraguatatuba.
Em 1975 e 1976 foi professor de desenho acadêmico no curso do próprio Aldo Cardarelli, aos dezoito anos. Ensinou pelos cinquenta anos seguintes — em ateliês do Rio de Janeiro e de Campinas, em oficinas públicas e em programas de secretarias de cultura. A docência não foi atividade paralela: acompanhou a obra inteira.
O desenho do espaço
Desde 1975 desenvolveu projetos de paisagismo, atividade que exerceu por décadas em paralelo à pintura — na Jardinarte, na Mac Flora e na Floricultura Allamanda, em Campinas. Trabalhou também como desenhista projetista e desenhista arquitetônico, e projetou residências.
Projetar jardins e casas ensinou-lhe a pensar a paisagem como percurso e como experiência. É desse aprendizado que vêm, mais tarde, as cenografias ambientais: espaços em que o visitante não observa a paisagem, mas caminha dentro dela.
Dois temas, a vida inteira
Duas investigações atravessam sua obra do começo ao fim: o mar e a cidade. A partir de meados dos anos 2000 ele as nomeia — Costa Brasileira e Cena Urbana.
As marinhas são as pinturas mais conhecidas. As urbanas são as que mais se transformaram ao longo da carreira, e nelas trabalhou o registro por contato: aplicava tinta sobre superfícies da cidade — calçadas, tampas, paralelepípedos — e imprimia tecido sobre elas, incorporando depois a impressão à pintura. Em novembro de 2005 expôs esses trabalhos individualmente no Frans Café, em Campinas; o convite intitula a mostra Sublimação, e em seu currículo ele a registra como Digitais Urbanas. Dela constava Lei Trabalho Evolução, técnica mista com relevo e colagem — o volume da superfície já estava em questão.
Da mesma pesquisa derivou a oficina de artes plásticas Tecido Urbano, cujo programa propunha identificar os suportes urbanos menos evidentes e registrá-los por fotografia, desenho e frottage.
As duas linhas nunca se separaram. A cidade é paisagem construída; o mar, paisagem encontrada.
As décadas de 1980 e 1990
Consolidou-se como pintor e aquarelista, com individuais e coletivas em instituições do Brasil e do exterior. Pintou marinhas, paisagens urbanas, bosques, cenas do Pantanal e estudos de luz e atmosfera.
O Pantanal foi referência permanente. A família mantinha um rancho na região de Miranda, no Mato Grosso do Sul, e as temporadas entre rios e áreas alagadas formaram o olhar naturalista que depois sustentaria os habitats artificiais.
Em 1992 participou da VIII Bienal Ibero-Americana de Arte, no México.
O aquário da família
Em fevereiro de 1996, seu irmão Hugo Gallo Neto, oceanógrafo formado pela Universidade Federal do Rio Grande, fundou o Aquário de Ubatuba. A família inteira se envolveu na construção. Hugo fez o aquário; Roberto executou os painéis e os murais; a cenografia foi feita por todos.
Ele falava daquele aquário como quem esteve ali desde o começo, embora não o tenha registrado em seu currículo — onde só constam, mais tarde, as contratações formais. Provavelmente porque aquilo não foi trabalho: foi família.
É desse envolvimento que nasce tudo o que vem depois. A passagem do pintor para a cenografia de habitats não foi decisão de carreira. Foi consequência de ter construído um aquário com o irmão, e de ter descoberto ali que a observação da natureza — que ele praticava desde a infância no Pantanal — podia deixar de ser tema de pintura e virar espaço construído.
Rio de Janeiro, 1992–2007
O Rio foi o período mais longo e mais decisivo de sua trajetória.
Chegou como pintor, no início dos anos 1990. Foi professor de artes plásticas no Atelier Espaço Galeria entre 1993 e 1999, designer na Apnéia entre 1996 e 2002, e participou de salões e galerias — Clube Naval, Colégio Militar, Barra Point, Recreio dos Bandeirantes. Executou dezenas de painéis em Copacabana, Ipanema, Barra da Tijuca e Angra dos Reis.
E foi ali que a obra mudou de natureza.
Em 2002 assinou a assistência de cenografia de Sonetos de Shakespeare, sob direção de Wagner de Miranda, na Fundição Progresso. No mesmo ano executou seus primeiros painéis de aquário como contratação profissional — em Aparecida e novamente em Ubatuba. O que começara em família virou ofício, e foi o teatro que fez a passagem.
Seguiram-se os painéis do Projeto TAMAR, em Ubatuba, entre 2003 e 2006, e novos trabalhos para o Aquário de Ubatuba em 2011 — uma relação com aquele aquário que atravessou quinze anos.
Arte em ambiente hospitalar
Em 2008 realizou, a convite da Dra. Silvia Brandalise, um grande mural em trompe-l'œil no setor de Radioterapia do Centro Infantil Boldrini, em Campinas, executado diretamente sobre as paredes e preservado até hoje. No ano seguinte fez painéis para o Hospital Metropolitano de Campinas. Reuniu essa pesquisa sob o título Hospitalarte.
Caraguatatuba
Trabalhou na cidade a partir de 2011, em cenografia, paisagismo e obras residenciais. Entre 2013 e 2015 executou ali cinco obras públicas — painéis em baixo-relevo, escultura em bronze e granito, mosaico e cruzeiro —, distribuídas por cinco logradouros. Em suas anotações, chamou esse conjunto de Alma Caiçara.
É o maior conjunto público de sua trajetória.
A escala e o estúdio
Entre 2015 e 2016 executou a cenografia do AquaRio, no Rio de Janeiro. O projeto exigiu soluções inéditas de engenharia, logística e modelagem em escala monumental, e consolidou-o nacionalmente como referência em cenografia ambiental.
A partir daí, o trabalho deixou de ser individual. As obras passam a ser assinadas por Gallo Studio Arte e Cenografia, com direção executiva a cargo de Marina Chahine Gallo, responsável pela coordenação de equipes, fornecedores, cronogramas e execução em obra. Nessa configuração foram realizados o Oceanic Aquarium, em Balneário Camboriú, o Bioparque Pantanal, em Campo Grande, o Caminho do Rosário, no Santuário Nacional de Aparecida, recintos do Zoológico do Rio de Janeiro e o Aquário de Cuiabá.
Em cenografia dessa escala a autoria é necessariamente coletiva — como sempre foi no ateliê.
O Aquário do Pantanal
Em 2010 a Terramare contratou Roberto Gallo para desenvolver os projetos de cenografia e paisagismo do Centro de Pesquisa da Ictiofauna Pantaneira e do Aquário do Pantanal, em Campo Grande, cuja arquitetura é de Ruy Ohtake.
A obra pública seguiu adiante por outros contratantes, e o artista autorizou que seu projeto continuasse a ser utilizado. A construção estendeu-se por mais de uma década.
Em 2020 o Estado do Mato Grosso do Sul retomou a obra e abriu nova licitação para a cenografia. A empresa do artista venceu e executou o trabalho. O equipamento foi inaugurado em 2022 como Bioparque Pantanal.
Doze anos separam o projeto da execução — e quem executou foi o autor do projeto.
Últimos anos
Participou do desenvolvimento do parque temático Aventura Jurássica, em Balneário Camboriú, integrando equipe com arquitetos, engenheiros e paleontólogos — dos estudos em maquete à implantação do paisagismo e ao acompanhamento diário da obra.
Em 2009 expôs individualmente em Muscat, Omã, na Al Madina Art Gallery. Participou da BELA — Biennial of European and Latin American Contemporary Art, em Helsinque. Em 2021 apresentou Intervenções, no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro, reunindo pinturas, esculturas, desenhos e maquetes — a mostra que colocou lado a lado o artista plástico e o cenógrafo.
Legado
Morreu em 18 de julho de 2023, aos 66 anos.
Sua obra está em hospitais, praças, aquários, zoológicos, parques e instituições culturais, visitada diariamente por milhares de pessoas que não sabem seu nome. Ao longo de cinquenta anos ampliou continuamente a escala do trabalho sem abandonar a pesquisa que o orientou desde o começo: a construção da paisagem como expressão artística.
Nota sobre as fontes
Este texto apoia-se no currículo publicado pelo artista, validado item a item contra documentos, notas fiscais, registros fotográficos e materiais do acervo.
O currículo é verdadeiro e não contém informação inventada. Apresenta pequenas imprecisões de data e omissões — o Cruzeiro de Caraguatatuba, comprovado por nota fiscal, não consta; o Aquário de Ubatuba de 1996 tampouco. As omissões parecem seguir um critério do próprio artista: ele registrou o que considerava profissionalmente relevante. As exposições e apresentações que ficaram de fora estão reunidas separadamente, sob o título Circulação e Difusão das Obras.
Onde a informação vem de testemunho familiar, e não de documento, está assim indicada.
O artista não se encontra disponível para esclarecimentos. Toda afirmação aqui registrada é passível de revisão diante de documento novo.
Roberto Gallo na frente da cenografia criada no Bioparque Pantanal
Artista Roberto Gallo no túnel do grande tanque no Bioparque Pantanal
o Artista Roberto Gallo em fase de execução da pintura do mural da Cenografia Veredas no Biorparque Pantanal
Roberto Gallo e Francisco Gallo na cenografia executada no Estúdio de Richard Rasmussen
Roberto Gallo realizando retoque de pintura em cenografia de rocha artificial
Roberto Gallo em saída de campo para inspiração de execução de cenografia em Corumbá-MS
Roberto Gallo em saída de campo para inspiração de execução de cenografia em Anavilhanas-AM
Roberto Gallo no túnel do Oceanic Aquarium após a inauguração
Bastidores da montagem e execução de cenografia temática por Roberto Gallo no Oceanic Aquarium.
Roberto Gallo na execução de cenografia no Oceanic Aquarium
Roberto Gallo durante os ajustes finais da tematização dos tanques no Oceanic Aquarium
Roberto Gallo apresentando itens cenográficos para Ciro Cabreira, durante a execução da Aventura Jurássica em Balneário Camboriú